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Notícias sobre agronegócios, agricultura, pecuária e meio ambiente - 20 de Julho de 2019
29/04/2013 - 08:32

Artigo - Outros perigos que a água traz

Confira artigo publicado na revista DBO pelo Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP e Pesquisador do CNPq, Enrico Ortolani.
Revista DBO
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Enrico Ortolani
Com exceção do gado confinado que bebe água invariavelmente em bebedouros, não existe uma pesquisa que avalie a porcentagem dos rebanhos que a ingerem em bebedouros, lagoas, riachos ou rios. Arriscaria dizer que os últimos três são os principais tipos de aguadouros disponíveis. Dessas três fontes as lagoas são as mais problemáticas aos bovinos. 

Um estudo identificou que pelo menos 2% das lagoas do Pantanal contêm água salobra. No sertão nordestino esse percentual é bem maior. O sal é essencial à vida, mas em excesso pode prejudicar. Um estudo baiano identificou num rebanho que tinha apenas água salobra para beber evidentes quadros de carências minerais, embora fosse ofertado suplemento mineral à vontade no cocho.

O consumo desse suplemento por cabeça era inferior a 2 gramas por dia (o ideal é mais de 50 g). O sal da água já saciava o gado, que não se sentia atraído a lamber o suplemento. As lagoas podem se contaminar com substâncias tóxicas. Examinei uma mortandade súbita num rebanho e chamava a atenção a eliminação de urina cor de vinho do porto nos doentes. Após rodar a fazenda, fui ver a lagoa onde o gado tomava água, que se encontrava incrivelmente esverdeada.

A lagoa ficava na divisa com uma grande plantação de laranjas. Descobriu-se que os agricultores haviam sulfatado o laranjal e parte do líquido do grande pulverizador foi despejado na lagoa, contaminando-a com sulfato de cobre. O excesso de cobre chega ao sangue e estoura as hemácias, fazendo com que o pigmento vermelho destas (hemoglobina) seja eliminado pela urina antes de matar os animais.Vez por outra lagoas podem ser contaminadas com chumbo.

Dois grandes surtos de mortandade de bovinos ocorreram em São Paulo em gado que bebia dessa água. Num deles verificou-se que uma fábrica de baterias de automóvel jogava os resíduos ricos em chumbo numa lagoa; no outro o aguadouro foi contaminado por um “cemitério” de baterias velhas de tratores que se oxidaram e extravasaram o conteúdo. O gado intoxicado fica deprimido, com musculatura trêmula, baba, exibe cegueira, range os dentes, delira e morre.

Esgoto - Mas o pior problema com as lagoas estagnadas é a contaminação com esgoto doméstico ou animal. Além de poder causar doenças como a leptospirose e a salmonelose, esse contágio pode redundar na terrível intoxicação por algas verde-azuladas.Contribuem para que isso aconteça altas temperaturas ambientes, clima seco, ausência de vento e enormes quantidades de fósforo e nitrogênio na água oriundas de urina e fezes ou adubo trazido pela chuva das lavouras.

Nesse caldo de cultura as algas assassinas se multiplicam e formam um tipo de lodo esverdeado, grosso e com aspecto oleoso, que boia na superfície do lago. Ao ingerir esse líquido, o gado pode morrer em pouco tempo.   
Essas algas contêm duas toxinas que podem arruinar o fígado ou o sistema nervoso. Nesse último caso, o quadro clínico é horripilante, com tremores musculares, salivação, convulsões e morte.

Essa toxina é semelhante à dos inseticidas organofosforados, atingindo o fígado e provocando diarreia intensa, depressão e morte. Os que conseguem sobreviver apresentam fotossensibilização, popularmente conhecida como “requeima”. O botulismo hídrico é outra causa de morte em gado que bebe água de lagoas contaminadas com carcaças inteiras de animais domésticos ou silvestres. 

Antes do apodrecimento dos cadáveres, bactérias do intestino chamadas Clostridium botulinum se multiplicam e invadem o corpo, produzindo aí a toxina botulínica liberada na água. Ingerida, ela age na musculatura, provocando relaxamento geral e prolongado. Inicialmente, o bovino parece estar embriagado, pois bamboleia as cadeiras, tropeça e tem dificuldade de se levantar. Já deitado, tem dificuldade para comer e respirar e morre em alguns dias. 
A crueldade também pode chegar pelas águas serenas e calmas dos rios.

No início de minha carreira acompanhei um caso escabroso. Cerca de 200 bovinos morreram subitamente com feridas na boca, garganta, esôfago e no bucho. Descobriu-se que uma fábrica de alumínio depositava um líquido rico em soda cáustica, oriunda do processo industrial, numa lagoa. Uma chuvarada rompeu a barragem e verteu o sopão cáustico num pequeno riachinho que desaguava 50 km à frente no rio, bem ao lado da fazenda. A “soda mortal” exterminou todo tipo de vida no riachinho e no início do seu estuário. 

A água de poços artesianos também pode matar a sede de bovinos, porém substâncias como o nitrato e o enxofre podem estar presentes em excesso, causando problemas ao gado. Nas águas do Estado norte-americano do Colorado, o excesso de enxofre causa um tipo de “corrosão” no cérebro, provocando cegueira, depressão e morte. Felizmente, até agora, em nossas águas não foi detectado esse acúmulo. Por tudo isso, nunca se esqueça da máxima: “Pecuarista que bem fatura coincidentemente só oferece ao seu gado água pura”.

Enrico Ortolani é Professor titular de Clínica de Ruminantes da FMVZ-USP e Pesquisador do CNPq. 
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